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Image by Annie Spratt
  • Foto do escritorRita Stano

Professor/a tem fome?



Conversas de professor/a. Não apenas compartilhando-as na rádio, mas garantindo-as nas aulas. E foi num desses bons papos, muitas vezes, por meio de teóricos que pensam a educação e o currículo, que um cenário se apresentou. Aos poucos foi sendo desenhado, tomando corpo e indignação em mim. Como é possível as escolas proibirem seus professores/as de fazer suas refeições na própria escola? Que lógica é esta que desconsidera, nega corpo, saúde e necessidade de alimento dos professores? Que lógica é esta que despreza a presença do professor/a como parte e sujeito do processo educativo? Como exigir competência, compromisso e práticas decentes dos professores/as, se eles se percebem não-sujeitos da rotina de refeição da escola? Em algumas escolas, nem esquentar suas marmitas pode o professor/a. O que se desvela deste cenário?

Afastemos as cortinas! Há nisso uma mensagem. Como um quadro de recados, o que se avista é “o que importa aqui é garantir alimentos para os alunos e só existe verba para eles. Os professores/as, coadjuvantes, não podem ser contabilizados nesse gasto em alimentação”. Junto a essa mensagem, podemos vislumbrar equívocos que colaboram com a desvalorização do magistério, com o desrespeito pelos professores/as apregoado em notícias diárias. Se nem em seu locus de trabalho o professor se percebe e se sente dignificado e cuidado, o que dizer ou esperar em termos de outros alimentos, menos palpáveis, intangíveis que preenchem a alma dos que ensinam?

Não adianta jingle em televisão clamando pelo valor e importância do professor/a, se as políticas públicas de gestão educacional não atentarem para o necessário cuidado para com os profissionais que garantem o funcionamento de suas escolas. Dignidade aos professores/as é o que devemos exigir!

Continuando o assunto... pensando em termos de currículo, o que os alunos/as apreendem e aprendem ao perceberem seus professores/as alijados do cardápio da escola? Como vêem o professor/a que não pode se sentar junto com eles, partilhar a comida, repartir o pão? Será que olham o mundo cindido e percebem que há desigualdade até na escola? Lugar de aprender, lugar de abertura de novas janelas, qual a paisagem que é apresentada aos alunos/as? Lugar de exclusão de professor/a? Escola feita de alunos com professores/as como meros coadjuvantes? Que mundo escolar está sendo construído? Há nessa proibição uma violência silenciosa que fere profundamente o que ainda talvez reste ao professor de alguma certeza de seu papel, de sua importância e responsabilidade na formação das novas gerações.

O que efetivamente está implicado nesse absurdo? Discursos que não traduzem as práticas de gestão. Escola como um não-lugar de professor/a. Alimentos para uns. Corpos negados. Mesquinharia e ignorância. Não reconheço a escola que me foi apresentada nessa conversa de professor/a. Desejaria que fosse mera história, completo engano. Gostaria que não fosse verdade, que me dissessem que é pegadinha, que os professores/as fazem suas refeições junto aos seus alunos/as, que o Estado garante esse direito aos seus tão mal-remunerados profissionais da educação. Que me acordem desse pesadelo, por favor!!!!


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